Entrevista com Domenico De Masi Sobre o Ócio Criativo



Você já imaginou fazer apenas o que gosta a vida inteira? Mas e daí, viveria do quê? Sonhos? Se imaginarmos o trabalho como um fardo, a situação realmente parece impossível. Mas e se o trabalho, o lazer e o estudo começassem a se misturar em nossas vidas de tal forma que não desse mais para diferenciar uma coisa da outra?


Esta é a proposta de Domenico de Masi, sociólogo italiano da Universidade La Sapienza, de Roma, e presidente da Escola de Especialização em Ciências Organizativas, a S3 Studium. Ele defende a ideia que é chegado o momento de cultivarmos o ócio criativo para uma nova era. Utopia? Não. Cada vez mais pessoas e empresas aderem aos seus conceitos e passam a ter vidas mais felizes e produtivas.


A seguir, veja trechos de duas entrevistas com Domenico De Masi. A primeira foi coordenada por Luiz Carlos Pires, jornalista e antropólogo, e teve como equipe Sonia Grisolia, Manoel Fernandes Neto e Mario Persona. A tradução é de Cristina Fioretti. A Segunda entrevista foi concedida a revista Exame.


Pergunta: Reunidos no Japão na mesma época do Seminário, os sete países mais ricos do mundo acharam que para a nova economia ser implantada em todo o planeta os ricos precisariam dar Internet para os pobres. Como os filósofos em Ravello viram isto?


Domenico De Masi: De espontânea vontade os ricos nunca darão nada aos pobres. É necessário que os pobres saibam defender os seus direitos e obter as próprias vantagens. Em todos estes anos nos quais o G7 se reuniu, na América o número de presos dobrou e em todo o mundo aumentou a distância entre ricos e pobres.


Pergunta: O senhor acha que as novas empresas ponto-com já administram seus recursos humanos de forma inovadora?


Domenico De Masi: Os call-center são linhas de montagem muito parecidas com aquelas com as quais a Ford construía o velho Modelo T. As empresas pós-industriais ponto-com administram os recursos humanos como se fossem velhas empresas industriais. Ainda ninguém inaugurou modelos organizacionais baseados na motivação (no lugar do controle), na desestruturação do tempo e do espaço, na redução do horário de trabalho, na perfeita igualdade entre homens e mulheres.


Pergunta: O senhor vê o teletrabalho que algumas empresas já adotam como a forma correta de motivar, bastando para isso estar longe da empresa no mundo real para ser mais criativo? O que é, na sua opinião, um modelo de relação de trabalho ideal?


Domenico De Masi: O teletrabalho serve para economizar tempo, dinheiro e stress. Sozinho, não assegura nenhuma criatividade. Uma relação de trabalho ideal permite aos trabalhadores não apenas ganhar dinheiro, mas também de satisfazer as necessidades de introspecção, amizade, amor, diversão, beleza e convivência.


Pergunta: Muitas pessoas simpatizam com suas ideias. Estariam elas apenas concordando com sua natureza abstrata porque não gostariam de mudar tanto?


Domenico De Masi: A maioria das pessoas que concorda com as minhas idéias sente uma real necessidade de modificar o modelo de vida imposto ao ocidente americanizado sob o impulso do pensamento empresarial: competitividade cruel, stress existencial, prevalência da esfera racional sobre a esfera emocional.


Muitos seres humanos são masoquistas. Depois se tornam sádicos. Depois se tornam sadomasoquistas. Não sei se ou quando as minhas idéias triunfarão. O meu dever é difundi-las e agir tenazmente para que se firmem o mais rápido possível.

Pergunta: Quando o homem vai usar a tecnologia favoravelmente a um estilo de vida enriquecedor?


Domenico De Masi: Ricos economicamente? Hoje já é usada com esta finalidade. Ricos humanamente? Quando substituirmos uma sociedade competitiva por uma sociedade solidária.


Pergunta: É possível humanizar o capitalismo ?


Domenico De Masi: O capitalismo é baseado no egoísmo e na competitividade: isto é, sobre premissas brutais, não humanas. Portanto é impossível humanizá-lo.


"É necessário aprender que o trabalho não é tudo na vida e que existem outros grandes valores: o estudo para produzir saber; a diversão para produzir alegria; o sexo para produzir prazer; a família para produzir solidariedade, etc."

- Domenico De Masi



A evolução do conceito de trabalho


Mesmo na sociedade pré-industrial já se tinha essa perspectiva do trabalho como a possibilidade de expurgar o pecado original. E isso passa a criar, mesmo na época rural, a ascensão do conceito do trabalho como algo essencial ao ser humano. Como consequência, o ócio é subjugado apenas àqueles que não tem interesse de serem perdoados do pecado original.


Avançando em sua história, De Masi diz que o capitalismo chega com o protestantismo, principalmente com Calvino, com a teoria que nós somos premiados por Deus não quando morremos, mas sim em vida. E esse prêmio tem sua origem na virtude do trabalho. Se você não for virtuoso na sua profissão, você é um pecador. O trabalho, no capitalismo, passa a ter duas vertentes que o suportam: a religião e o consumo. Além de graça divina, o trabalho dá acesso às benesses do consumo.


Com isso, apesar da origem religiosa, a conexão entre a virtude e o trabalho se suporta pelas relações de consumo que são estabelecidas atualmente, já que aquele que tem trabalho pode ter acesso ao que o capitalismo tem de melhor – o conforto e a diversão proporcionados pelo consumo. É sob este estereótipo do passado que até hoje estamos vivendo.


O papel dos gerentes e dos cursos de gestão


Segundo Domenico, a ideia do trabalho como um privilégio foi impregnada em toda a sociedade, mas ainda de maneira mais intensa nos cursos de gestão, como administração, economia, ou engenharia de produção, ou qualquer um que tem como princípio formar gestores.


Os gestores acabam propagando a cultura do “trabalhar mais é melhor”, e entendem que se há ainda trabalho a ser feito, deve-se continuar trabalhando, estendendo-se a jornada normal. Isso acontece, segundo Domenico, especialmente nos países católicos. Ele diz que um gerente na Alemanha, por exemplo, não tem nenhum problema em sair do trabalho às 5 da tarde. Mas os gerentes de países católicos como os EUA, Brasil, Espanha, Itália, acham que devem ficar até mais tarde, como uma espécie de penitência necessária para aquele que tem o privilégio do trabalho.


Quando falamos ‘trabalho’, isso está muito relacionado ao trabalho operário. Quando Marx escreve O Capital, Manchester era a cidade mais avançada do mundo e 97% de todos os trabalhadores eram operários. Hoje na Itália são apenas 33% de operários. O restante são analistas, ou gerentes, ou criativos. Mas ainda estamos muito baseados no trabalho operário.

Enquanto os gestores e as escolas de gestão não mudarem esta perspectiva do que de fato é “trabalho”, este conceito que vem dos anos 1930 continuará presente na simbologia da sociedade contemporânea.


O trabalho e a felicidade


O trabalho sempre esteve desassociado da felicidade. Segundo De Masi, “A felicidade começa no trabalho, mas não como felicidade, como dever, que é uma coisa diferente da felicidade. O trabalho é um dever, não é felicidade. A felicidade é o fruto do trabalho. Taylor, Ford, fazem a linha de montagem mas isso não é felicidade, me permite ganhar o dinheiro, que é o fruto do trabalho, que deve me trazer felicidade.”


A perspectiva industrial é que a felicidade era resultado do trabalho, mas diferente dele. Já na sociedade pós-industrial, este tipo de ideia está fadada a mudar, o que seria no entender de De Masi uma “grande mudança”.


A alteração do trabalho industrial para um trabalho pós-industrial, ou criativo, traz a perspectiva conjunta de trabalho e felicidade. “Um mineiro não consegue trabalhar e ao mesmo tempo ser feliz. Se o minerador é feliz trabalhando, ele é um alienado, é um louco”, diz Domenico. No entanto, um criativo pode trabalhar e ser feliz ao mesmo tempo.


Mas e as empresas como Google, Microsoft, ou outras, que colocam no ambiente de trabalho pequenas ilhas de “diversão”, como videogames, pebolim, salas de descompressão, entre outras atividades “divertidas”? É possível ser feliz nessas empresas, enquanto se trabalha?


Domenico é taxativo: “Google, Microsoft, estão no limite extremo da visão do gerente americano. É um infantilismo. Não como um fato adulto, da pessoa que se realiza (ao trabalhar), mas como um bando de crianças, com o seu pebolim. É uma ofensa à inteligência humana. Eles estão no limite da delinquência”. Segundo De Masi, o comportamento deste tipo de empresa é limítrofe – eles operam sob a lógica do industrialismo, com as pessoas tendo que trabalhar longas horas e produzir muito, mas com a tentativa de incutir nos seus colaboradores uma visão de trabalho criativo do pós-industrialismo e, portanto, de felicidade enquanto se trabalha.


De Masi entende que as grandes ideias não são produzidas nas grandes empresas, mas especialmente fora delas, e cita o Facebook como exemplo, que surge dentro da Universidade, e não dentro de uma empresa.


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Trechos extraídos de duas entrevistas com Domenico De Masi quando esteve no Brasil em 2010 e 2017. Veja estas entrevistas na íntegra em:


- https://www.mariopersona.com.br/domenico.html

- https://exame.abril.com.br/blog/branding-consumo-negocios/entrevista-com-domenico-de-masi-o-trabalho-no-seculo-xxi/


Veja também:

- https://www.youtube.com/watch?v=TVx-L2I1TDk

- https://www.youtube.com/watch?v=D2ozDVnytkE

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